Poderia dizer que leio livros para me tornar menos ignorante. Contudo, acho que o faço mesmo porque consigo me desligar de quaisquer mundinhos quando tenho uma boa história em mãos.

Sei que, de certa forma, Ruy Castro me salvou da ignorância de pensar que Carmen Miranda era apenas uma mulher que fez sucesso com seu pomposo turbante de frutas na cabeça, cantando o samba de Caymmi O que é que a baiana tem?. Da euforia dos primeiros carnavais ao final melancólico em Los Angeles, é possível entender porque a artista foi digna de merecer Carmen, uma bela biografia de mais de 600 páginas. E por falar em Ruy Castro, foi ele quem selecionou e traduziu os contos de Dorothy Parker em Big loira e outras historias de Nova York. A autora entra para minha lista de autores preferidos, por seu senso de humor amargo e por sua capacidade de descrever situaçoes tragicômicas. É também daqueles escritores que a gente não consegue decidir o que é mais interessante: vida ou obra.
Do argentino Julio Cortazar, li O exame final e o Diário de Andrés Fava. Exame final conta a história de um grupo de amigos – dentre eles, o Andrés - que caminha pelas ruas de Buenos Aires na véspera de um importante exame. No meu caso, me reconheci em cada um dos personagens – ás vezes é doloroso se reconhcer assim – e reconheci todos os meus melhores amigos. O diário de Andrés contém pensamentos e reflexões do personagem. Ambos os livros são daqueles merecedores de copiar paragráfos ou páginas inteiras e eu lia balançando a cabeça “aham, é isso mesmo”. Tão bom quando alguém coloca no papel exatamente o que você pensa, não é mesmo?

Sobre A Sangue Frio já escrevi aqui. Me lembro desde sempre do meu pai me dizendo sobe o livro, sobre a história real, o quão cruel foi o que aconteceu. Tenho certa vergoinha de admitir que só li a obra mesmo este ano (apesar de já saber muito da história, por ler relatos de relatos, por saber muito da vida de Truman Capote e sobre novo jornalismo). Foi o melhor que li este ano e daqueles livros que me afetou de verdade. No período em que li, não conseguia deixar de pensar na história. Até mesmo quando dormia, sonhava – ou tinha pesadelos?- sobre o ocorrido. Da prateleira “jornalismo literário”, li também Radical chique e o novo jornalismo, de Tom Wolfe. A parte, digamos, “técnica” do livro, já estava cansada de saber (ainda assim é uma boa introdução para quem não sabe muito do assunto). Mas nada como ler as reportagens de Wolfe que estão lá para ter certeza de que o novo jornalismo me faz pensar que escolhi a profissão certa.
De Chico Buarque, li Estorvo e Budapeste, para uma matéria na faculdade chamada “As cidades na Literatura de Chico Buarque. Enquanto o segundo li mais por curiosidade – e como foi interessante lê-lo quando estudava linguística ao mesmo tempo -, o primeiro li, reli e li mais uma vez para fazer o trabalho final do curso. Junto a Estorvo, veio a leitura de outros livros e textos maravilhosos sobre o escrever a cidade. Nada mais prazeroso para quem, como eu, gosta fingir-se de flâneur ou simplesmente contenta-se em observar pessoas e situações.
O clássico do ano foi Pergunte ao Pó, de Jonh Fante. Apesar de não ter achado o livro suficiente para me considerar mais uma dentre tantos fãs do autor, não posso negar que senti aquele bom incômodo ao ler a história de Arturo Bandini e sua paixão maldita pela mexicana Camila.
Após as amarguras de Estorvo e Pergunte ao Pó, veio o infantil Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará. Bom para respirar um pouco e dá para ler enquanto espera um vôo BH-Rio de Janeiro, por exemplo. Li para resenhar para uma revista feminina e recomendo para as crianças. Partindo da premissa de que o conto pode deseducar ecologicamente as crianças, o autor transporta a história para o Brasil e Chapeuzinho vai visitar a avó pelo caminho do cerrado. Educativo que só lendo!
E aí depois veio um daqueles livros que muda a vida para sempre. Após ler Alguns poemas, de Emily Dickinson, fiquei contaminada pela forma com que a escritora faz poesia. Conclusão: a maioria dos poemas que tentei escrever após ler o livro, tinha um quê dickinsiniano. Não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que isso acontece quando a gente gosta mesmo do que algum autor escreve. Posso afimar também que Emily Dickinson tem a vida mais curiosa dentre os autores que li este ano, já que passou a maior parte de sua vida reclusa em um quarto, onde escreveu seus extraordinários poemas.
Ainda que não me considere fã de Harry Potter (também pudera, com os fanáticos que existem por aí, eu não me consideraria mais que uma “fiel admiradora”), li o último livro da série (Harry Potter and the deathly hallows) logo que saiu na versão inglesa. Mais uma vez J. K. Rowling te prende na história e faz você passar a madrugada lendo para saber como termina tudo. Porém, achei o início arrastado e não incluo o Deathy Hallows dentre os melhores da saga de Potter.

Acertei ao escolher História da MPB, de Rodrigo Faour, para ser meu último livro antes de sair do Brasil. Como brasileiro gosta de sofrer e escrever sobre dores-de-cotovelo! O autor explora as canções desde o maxixe até o funk proibidão. Ah, é bom sim ter um conhecimento prévio das canções antes de ler o livro e aí eu agradeço à minha mãe pelas inúmeras viagens de carro com trilha daqueles discos da coleção “Fim de tarde” (uau, nunca me esqueci do nome!).
Cá no continente velho, terminei o ano lendo Palm Sunday e Cat’s Cradle, do Kurt Vonnegut. Palm Sunday é uma espécie de autobiografia e saber mais da vida do escritor me fez ainda mais fã (sim, sou fã do Vonnegut e encho a boca para falar isso). Cat`s Cradle é considerado clássico dentre sua obra – é um dos que muita gente lê primeiro – e está tudo lá: toda a ironia inteligente que te faz rir quase com culpa.
Ano que vem – ou semana que vem – começo com James Joyce porque me falaram que tenho que ler Ulisses antes de visitar Dublin, na Irlanda.
Segue o esquema estrelinha abaixo:
Carmen *****
Big loira e outras historias de Nova York ****
O Exame final ****
Diário de Andrés Fava *****
A sangue frio *****
Radical chique e o novo jornalismo ***
Estorvo ****
Budapeste ****
Pergunte ao pó ***
Chapeuzinho vermelho e o lobo guará ***
Alguns poemas: Emily Dickinson *****
Harry Potter and the deathly hallows ***
História sexual da mpb ****
Palm Sunday *****
Cat's cradle ****